terça-feira, 31 de maio de 2011

Aula Introdutória de Economia Política


Aula Introdutória ao Estudo da Economia Política
Prof: José Amado

Antes de tudo, uma advertência. No estudo de qualquer ciência social, a análise histórica impõe-se como uma condição essencial. Alerta-se, outrossim, que nas ciências sociais, muito mais que nas ciências naturais, sempre há que se considerar, não ser ela isenta de juizo de valor, ou seja, há sempre interesses incrustados em suas assertivas: o interesse da classe dominante.

A Economia Política ocupa-se de uma parte da realidade social, especificamente daquela que diz respeito as relações sociais voltadas ao atendimento das necessidades materiais do homem. Ela busca entender a razão do homem, em sua evolução histórica, haver criado instituições como: propriedade privada, dinheiro, mercado, salário, lucro etc, tão presentes na vida social, como algo permanente, natural e invariável na sua conformação.

Nascia a Economia Política na segunda metade do século XVII, expressando o ideário da burguesia “no período que esta classe estava na vanguarda das lutas sociais” e a nova ciência dava a sustentação ideológica de que necessitava o movimento revolucionário para sobrepor a ordem feudal, garantido seu avanço e sua consolidação como a nova classe dominante. Havia, por assim dizer, uma relação de cooperação entre a burguesia e a cultura ilustrada, fundamentada numa proposta de libertação humana focada nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. A revolução burguesa, de fato, liberta o homem da dependência senhorial, relação prevalecente no regime anterior. Agora todos são iguais perante a lei. Evidencia-se uma libertação política, que não garante a libertação econômica-social.

Impõe que se destaque que a crise do feudalismo remonta a meados do século XIII, pressionado pela baixa produtividade da terra, surgimento das cidades e de uma insipiente atividade mercantil, começa a alterar a relação de produção feudal. A relação entre os servos e senhores que antes desenvolvidas sem a intermediação monetária, já agora, em muitos casos, exigia que os pagamentos fossem feitos em dinheiro. As cidades passam a apresentar uma demanda crescente por bens e serviços, que a estrutura de produção feudal era incapaz de atender. Toda essa pressão sobre o regime feudal forçou a classe senhorial a se organizar buscando a criação de um Estado mais forte. Surge o Estado absolutista legitima representante do senhoril. O poder político não era mais repartido entre a nobreza, concentrava-se na mão de um rei.

A manutenção do Estado absolutista e a opulência da nobreza impunham um custo que precisava ser financiado e esse recursos foram buscado justamente na classe à qual ele deveria reprimir: os emergentes comerciantes, mercadores, banqueiros; a nova burguesia, que passa a ter um significativa influência junto a classe dominante. Ressalva-se: influência econômica, porque o poder político continua na mão da nobreza. Quando unida a força econômica da nova burguesia e a insatisfação da classe camponesa e com a participação aglutinadora de intelectuais, a chamada cultura ilustrada, se instala uma nova ordem política e econômica.

Estamos no segunda metade do século XVII, quando já se consolidava a revolução burguesa e a nova ciência; a Economia Política dar a nova ordem econômica a sustentação ideológica necessária para sobrepor definitivamente a ordem feudal, garantindo consolidação e estabelecendo a burguesia como classe dominante que, no poder, revela seu lado conservador, promovendo uma ruptura com o ideário revolucionário e com o pensamento ilustrado que lhe dera sustentação. As classes populares que apoiara a burguesia na articulação revolucionária e na derrocada do antigo regime, é agora objeto de dominação e, anova ordem, é adequada aos interesses burgueses. Cria-se assim, as condições de revanchismo, agora não mais contra a nobreza, mas contra a classe trabalhadora e novo segmento proletário, que cumina com a revolução de 1848-revolução proletária.

A Economia Política que fundamenta a sua teoria no valor trabalho e que com esse fundamento combatera, com o apoio da burguesia, o regime feudal e o parasitismo da nobreza e que tem sua analise economia-social “a partir da produção dos bens materiais e não na sua distribuição”, não mais atendia ao pensamento conservador burguês e passa a ser combatida como sendo uma proposta de análise social extra-cientifica e uma nova Economia, esta, sem a adjetivação de politica vem a substituí-la.
Esta nova Economia se desenvolve como uma ciência independente, sem a preocupação com o processo histórico e com o método de pesquisa social. A nova Economia ajusta-se aos interesses da ordem social burguesa, exacerba-se no uso de modelos matemáticos e despreocupa-se em oferecer os instrumentos para necessária compreensão da vida social, postura oposta ao da Economia Política Clássica. Karl Marx chamava os defensores dessa nova Economia de economistas vulgares. Destaca-se como defensores dessa nova Economia Williom S. Jevons (1835-1882), Carl Mengen (1840-1921), Léon Walras (1834-1910), como observa-se, intelectuais respeitados.

A nova ciência desenvolve-se abandonando o princípio do valor trabalho e assume o princípio do valor utilidade marginal, que já tivemos a oportunidade de tratarmos em sala de aula. A partir de uma postura critica a essa Economia, destaca-se que ela defende como necessário a ordem social os princípios da propriedade privada, do salário, do lucro, do capital. A economia que sera objeto de nosso estudo é a Economia Política que se lastreia na princípio do valor trabalho e que desenvolve sua análise a partir de uma perspectiva história da formação social.

Chama-se atenção, que as discussões que se seguirão ao longo do curso, fundamenta-se na critica marxista ao modelo capitalista de produção que, convém que se destaque, não é uma unanimidade, muito pelo contrário, é uma linha de pensamento e de análise que tem sido objeto de grandes discussões e profundas discordâncias, mas que pode oferecer ao estudante um instrumental importante para a análise social.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Apostila: Elaboração de Projetos Públicos



GESTÃO PÚBLICA
PROF: JOSÉ RODRIGUES AMADO


Projetos de Bens ou Serviços Públicos

    • O beneficiário do projeto público é uma comunidade;

    • O projeto expressa uma ação de políticas públicas;

    • Em geral o projeto está no contexto de um plano e programa;


Roteiro Básico de um Projeto

Apresentação

  1. Identificação

  1. Justificativa

  1. Objetivos Gerais

  1. Objetivos Específicos

  1. Resultados

  1. Atividades

  1. Insumos/Recursos

  1. Orçamento

  1. Cronograma

  1. Órgão Executor

  1. Riscos

  1. Esquema de Monitoramento da Execução


Identificação:

Na identificação especifica-se a ação objeto da intervenção. O nível de detalhamento dessa especificação deve corresponder à complexidade e dimensão do projeto. As informações devem indicar:


  1. A área de atuação do projeto;

  1. Sua localização geográfica;

  1. Os níveis administrativos envolvidos;

4. A instituição responsável;

  1. Os grupos de população envolvidos

  1. Outras informações que possam melhor identificar a área de atuação do projeto.
Justificativa

Na justificativa deve-se apresentar as razões pelas quais se julga necessário executar o projeto. A justificativa deve ser explicitada de forma clara e precisa. Informações a serem prestadas na justificativa:

  1. O problema (ou problemas) a ser tratado ou resolvido, indicado a situação existente e a que será alcançado com a realização do projeto;

  1. A metodologia adotada, descrita de forma sumária, e o porque adotou a metodologia;

  1. As mudanças que se espera com a execução do projeto e de como os resultados alcançados serão utilizados e quais os beneficiários;

  1. Informar se o projeto pode ser desenvolvido pelo órgão responsável pala área a que ele se refere ou se será necessário à contratação de assistência técnica e operacional;

  1. Quando for o caso, fazer referência à participação de outras entidades, inclusive a própria população beneficiária e de que forma serão envolvidas;

  1. A integração do projeto com outras atividades do órgão, definido claramente sua relação com outros projetos previstos ou em execução;


Objetivos Gerais

Os projetos gerais estão no contexto de um programa ou de um plano, assim sendo, os objetivos gerais do projeto guardam uma estreita relação, evidentemente, na escala do projeto, com o programa que lhe dá cobertura. Dificilmente um projeto, de forma isolada, pode assegurar que se atinja um objetivo de um plano ou programa, por exemplo, as metas de uma Política de Meio Ambiente do País.

Os projetos são elaborados para solução de problemas identificados no contexto do plano ou programa. Um programa de modo geral envolve vários projetos.


Objetivos Específicos


Os objetivos específicos são aqueles que devem ser alcançados por maio do projeto. Enquanto os objetivos gerais são de nível superior e, portanto, definido de forma genérica, os objetivos específicos devem ser definidos de forma muito clara. Devem relacionar os resultados a serem alcançados e os impactos esperados com a execução do projeto por de indicadores que possam ser quantificados e/ou qualificados, definindo metas parciais e finais para o projeto
A determinação dos demais elementos do projeto, está diretamente ligada à compreensão dos objetivos específicos. As dificuldades de organização e deficiências na execução do projeto se devem a uma definição equivocada ou a insuficiência dos objetivos específicos.

Os objetivos específicos devem ser realistas, considerando o tempo, os recursos financeiros e humanos disponíveis, tantos para aqueles aportados para o projeto em si, como para sua operação e manutenção.

O projeto deve ter um número limitado de objetivos específicos. Quanto tem muitos é conveniente organiza-los em mais de um projeto, para evitar dificuldades na execução. Para cada objetivo específico deve ser definidos os resultados e os impactos esperados e especificados os indicadores que demonstre que foram alcançados, bem como os recursos exigidos. Os objetivos específicos podem ser alcançados em várias etapas de execução, mas os impactos desejados geralmente só são alcançados ao final do projeto.

Cada objetivo dede ser apoiado, no mínimo, por um resultado. Caso não lhe corresponda nenhum; é necessário reformular o projeto, pois provavelmente não se trate de um objetivo, mas de um resultado ou mesmo de uma ação.

Resultados

Os resultados são elementos que, ao integrar-se, levam à obtenção de um ou mais objetivos específicos. São elementos tangíveis que o projeto deve produzir para alcançar os objetivos propostos. São originários dos objetivos específicos, pois são os efeitos das ações que devem ser realizadas para alcançar esses objetivos.

Os resultados devem ser descritos de forma clara e verificável. Deve existir pelo menos um, sendo provável que haja mais de um resultado para cada objetivo específico. Pode acontecer que um resultado contribua para mais de um objetivo específico e, neste caso, deve-se destacar os objetivos específicos que receberam sua contribuição.

É comum se fazer confusão entre os resultados de realização com o resultado e impacto do projeto. Nesse nosso roteiro, o resultados de realização, correspondem ao comprimento das tarefas, servindo apara o acompanhamento físico-financeiro (ex. compra de equipamentos, realizações de cursos, etc.).

Atividades

As atividades do projeto originam-se diretamente dos resultados a serem obtidos e constituem-se em uma ou mais tarefas concretas que serão obtenção do mesmo. Se uma atividade não está orientada para a obtenção de resultado do projeto não deve ser incluída no mesmo.

Cada resultado corresponderá pelo menos a uma atividade. Devem ser enumeradas todas as atividades necessárias para produzir um resultado. Geralmente, necessita-se de várias atividades para obtenção de um resultado e algumas podem contribuir para mais de um resultado, o que deve ser indicado, quando ocorrer.
Deve-se indicar a duração prevista de cada atividade e seu início dentro do período do projeto, se depender de outras ações para ser executada e quem é responsável por sua execução.

Insumos

Os insumos são os meios necessários para a realização do projeto, pode ser equipamentos, material de consumo, pessoal, diárias, passagens, bolsas etc. São determinados após a definição dos objetivos gerais e específicos, resultados e atividades, já que podem ser facilmente identificados com os elementos necessários para que se cumprirem às tarefas de cada atividade.

Em um projeto devem ser indicados todos os insumos necessários à execução das atividades e a obtenção dos resultados esperados. Uma vez identificados todos os insumos necessários, devem ser destacados os que podem ser assegurados pelo órgão executor do projeto diretamente e os que devem ser adicionados pelo projeto.




A definição de insumos não deve ficar em uma simples quantificação, mas deve conter uma descrição mínima que permita conhecer o tipo e a qualidade. Essa deve ser suficiente para assegurar que o insumo proposto seja adequado ao projeto.

Orçamento

Com a definição dos insumos, é possível especificar os custos do Projeto de acordo com os principais itens do orçamento, divididos em investimentos (equipamentos, obras, serviços de consultoria) e despesas correntes (passagens, diárias, serviços de terceiros pessoa física e/ou jurídicas), de forma a demonstrar como serão utilizados os recursos.

Quando o projeto utiliza recursos de mais de uma fonte, deve-se especificar com que valor cada fonte contribui.

Vale destacar, que há projetos que apresentam atividades permanentes de manutenção e operação, implicado em custos permanentes que deverão incidir pela instituição que receberá o projeto após concluído.

Cronograma

Definido as atividades do projeto, suas inter-relações com outras ações e seu encadeamento lógico, deve ser apresentado um cronograma geral para todo período de execução, devendo constar o desenvolvimento físico e os gastos financeiros correspondentes.

Deve ser apresentado no cronograma o tempo real de execução das ações. Deve-se ter cuidado para não subestimar esse tempo, pois é comum acontecer, especialmente, por se desconhecer os prazos legais de algumas ações, como por exemplo, licitações, recursos, tramitação de convênios, liberações de recursos etc.


Monitoramento e Avaliação

O monitoramento se impõe como uma etapa fundamental à execução do projeto. Na execução do projeto é comum surgir situações imprevistas e o acompanhamento, o monitoramento, como um elemento do sistema de informação, deve alertar a gerência do projeto sobre a ocorrência e sugerir a melhor forma de contornar a dificuldade, servindo com um instrumento de ligação entre a gerencia e a execução.

O monitoramento deve compor o sistema de informações-decisões, onde o fundamental e a obtenção e transmissão de informações relevantes à tomada de decisões, contribuindo para realizar ajustes que conduzam ao atingimento dos objetivos e das metas.

Não se deve confundir monitoramento com avaliação, os dois são relacionados, mas distintos. As informações de monitoramento não são suficientes para que se realize uma avaliação.

O monitoramento deve centra-se em determinar se os insumos estão sendo distribuídos, se estão sendo realizado as atividades e obtidos os produtos previstos, enquanto a avaliação centra sua atenção na estimativa dos efeitos diretos e indiretos, além da estimativa de impactos.

Na prática, as metodologias e informações de monitoramento e avaliação se superpõem, ficando difícil estabelecer onde se inicia ou termina o monitoramento ou a avaliação. As principais diferenças são colocadas a seguir:

Monitoramento:
        1. Realiza-se junto com a execução;
        2. Centra sua atenção em insumos, atividades e produtos;
        3. Enfatiza o cumprimento do cronograma de trabalho e a obtenção de alguns efeitos;
        4. Analisa as condicionantes externas que afetam a execução;
        5. É um processo regular e continuo;
        6. Acompanha a execução a fim que as atividades se realizem conforme o planejado.
Avaliação:

  1. Realiza-se antes, durante e após a execução;
  2. Centra sua atenção na estimativa de efeitos e impactos;
  3. Considera a relevância dos objetivos, a eficácia na obtenção dos objetivos e a eficiência no uso dos recursos;
  4. Considera a sustentabilidade de produtos e efeitos e a pertinência da organização;
  5. É um processo esporádico;
  6. Emite um juízo de valor sobre o mérito de um projeto.

Estrutura de Um Sistema de Monitoramento

O que caracteriza um sistema de monitoramento e sua retroalimentação ou o retorno da informação (feedbak). As entradas são as informações provenientes da execução que após serem analisadas transformam-se em relatórios de monitoramento (saída) que vem a ser o produto e que se constitui no subsídio básico e entrada para os órgãos decisórios. Esses órgãos processam as


informações dos relatórios e se necessários, realizam a ações corretivas, ajustes ou reformulações, retornando à origem.

Dificuldades ou restrições ao processo de monitoramento:
  1. problema de acesso às informações;
  2. dificuldade de relacionamento entre o pessoal do monitoramento e os técnicos e/ou dirigentes responsáveis pela execução;
  3. ausência de respaldo político para realizar monitoramento;
  4. prazo curto para que o pessoal do monitoramento realize a tomada de informações e o seu processamento e a elaboração do relatório;
  5. entropia da informação, ou seja, no processo de coleta de informações existe a possibilidade de que ela chegue incompletas, distorcidas ou com perturbações.

Ciclo de Monitoramento:

O ciclo do monitoramento indica os passos básicos desse processo, que são:

  1. O estabelecimento dos indicadores;
  2. A medição do desempenho, o que significa a coleta de informações em relação aos resultados das atividades realizadas durante determinado período;
  3. A comparação do desempenho atual com os padrões;
  4. A ação corretiva no caso de desvios.

O estabelecimento dos indicadores e a determinação das metas e padrões são os elementos fundamentais para comparar o planejando com realizado. Os padrões são as normas ou critérios estabelecidos previamente com os quais os resultados devem ser medidos por comparação. Normalmente os padrões são as próprias metas do projeto. Ex: um programa de moradias populares, a meta é a entrega, a uma determinada população com determinada renda média mensal, 2.000 casa anuais a um custo de R$50.000,00 cada uma (70 m2 de área construída), durante os próximos 5 anos, a fim de cobrir o déficit existente de quase 10.000 moradias. Neste caso, um dos indicadores é o No. de moradias construídas e o resultado obtido anualmente é comparado com o padrão, que responde à meta de 2.000 casas por ano. Daí que na definição dos objetivos de um projeto é fundamental que seja quantificado e determinada as metas.

Indicadores de Monitoramento: Definições e Características:

Os indicadores são variáveis que ajudam a medir as mudanças, progresso ou resultado de uma atividade em relação aos objetivos e metas definidos em um determinado período de tempo. Os indicadores podem ser expressos em percentuais, índices e também por conceitos. Ex: supondo que um projeto tenha por objetivo que 300 crianças maiores de 5 anos tenha bolsa escolar durante 10 anos e que em média as que devem ter assistência às aulas de no mínimo de 80% anual . Passado o primeiro trimestre, o município informou que 120 crianças tinham bolsas e um contrato de normas e deveres com as famílias. O indicador será número com Bolsa Escolar.
Conhecido o número, o percentual com relação à meta será de 40% (120/300 x100). Significando, que nos primeiros seis meses, o projeto atingiu 40% da meta estabelecida.

Os indicadores também podem ser qualitativos. Ex: desejando-se saber de uma associação está funcionando adequadamente. Neste caso, estuda-se o estatuto, verifica-se no capítulo das obrigações e compara-se com o que estar sendo praticado, item por item.

Um bom indicador de cumprir pelo menos os quatro requisitos abaixo:

          1. o indicador deve ser valido, ou seja, possa medir o que se supõe deva ser medido;
          2. o indicador deve ser confiável, ou seja, se a medição for feita por outra pessoa, à conclusão deve ser a mesma;
          3. o indicador deve ser pertinente, ou seja, deve guardar relação com os objetivos que pretende medir;
          4. o indicador deve ser eficaz em relação ao custo, ou seja, deve existir um equilíbrio entre o benefício da informação e o custo de obtê-la.

Os indicadores podem ser classificados como de insumos, de atividades, de produtos, de efeito e de impactos. São indicadores de insumos: recursos humanos contratados, equipamentos adquiridos, recursos financeiros gastos e outros; Indicadores de atividades: cursos realizados, estudos elaborados, transferências de tecnologia, folhetos elaborados e distribuídos, etc; Indicadores de Produtos: escolas construídas, pessoais treinados; crianças vacinadas, etc. Os indicadores de efeitos e Impactos, permitem medir a qualidade e quantidade dos resultados alcançados por um produto em uso.

Tipos de Indicadores:
Os indicadores são tipificados em: de Cobertura, de Utilização, de eficácia, de eficiência e de efetividade.

Indicador de Cobertura (C):

De modo geral os projetos tem por objetivo prestar serviço a um determinado grupo social (grupo alvo). O grupo alvo é o que recebe o benefício direto do projeto, mas ele está contido em num grupo maior que chamaremos de população alvo, que também necessita do benefício do projeto e que se pretende atender numa oportunidade futura. O indicador de Cobertura relaciona a população atendida com aquela que se pretende atender. Ex: capacitação de professore. Os professores de uma determinada são num total de 600, mas o projeto capacitou 400, logo o índice de cobertura será: 400/600 x 100 = 67%.

Índice de Utilização (U)

Mede o uso efetivo dos recursos disponíveis. Corresponde à relação existente entre os recursos efetivamente utilizados e os recursos disponíveis para uma atividade, numa determinada unidade de tempo. Ex: Em um hospital, os leitos disponíveis são 120, mas o, efetivamente, utilizados em um mês foram 90 leitos, logo o índice de utilização é de 75%.

Índice de Eficácia (E)

Pode ser entendido com o grau alcançado pelas metas de um projeto junto à população alvo (beneficiária) em determinado período de tempo, independentemente dos custos incorridos.

Fórmula para determinação da eficácia:

E = (MR/TR) ÷ (MP/TP)

Onde: E = eficácia
MR = Meta Realizada
MP = Meta Planejada
TR = Tempo de Realização
TP = Tempo Planejado
Possíveis resultados:
E > 1 projeto muito eficaz
E = 1 projeto eficaz
E< 1 projeto ineficaz

Ex: Em um programa de moradias populares foi planejado se construir 200 casas em seis meses, mas se construiu 180 em cinco meses. Logo:

(180/5) ÷ ( 200/6) = 1,06 → Trata-se de um projeto eficaz ( alcançou mais que o planejado)

Eficiência (Ef)
Trata-se de um conceito que se define a partir da análise de duas perspectivas que são complementares. Ex: a) se a quantidade de produto esta definida no projeto e trata-se de minimizar os custos ou os meios necessários para alcançar; b) se o gasto total for previsto no projeto e se deseja minimizar a quantidade de insumos para maximizar o produto.

Fórmula para cálculo considerando a relação existente entre o produto e os custos dos insumos:

Ef = { (MR/CR) x TR } ÷ {( MP/CP) x TP}

Onde: Ef = Eficiência
MR = Meta Realizada
MP = Meta Planejada
CR = Custo Realizado
CP = Custo Planejado
Possíveis Resultados:

Ef > 1 – projeto muito eficiente
Ef = 1 - projeto eficiente
Ef <1 - projeto ineficiente

Ex: Considerando o caso anterior das moradias e supondo que cada casa foi planejada com um custo de R$ 40.000,00 e que o custo realizado foi de R$ 50.000,00, então:
Ef = {( 180 / 50 ) 5 } ÷ { (200/40) 6 } = 0,60

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Evolução da Economia Internacional

Estudo

Prof.: José Amado

Período da Segunda Guerra até o fim do Sistema de Bretton Woods

Antecedentes:

Com o fim da primeira guerra mundial em 1918, os países europeus estavam com suas economias completamente debilitadas. Os sistemas produtivos destruídos e suas dívidas, decorrentes do esforço de despesas de guerra, muito elevadas.

Nessa circunstância muitos países abandonaram o padrão ouro, elevando-os a inflação e obrigando-os a intervir na taxa de câmbio para viabilizar suas exportações.

De alguma forma toda essa situação contribuiu para que eclodisse a segunda guerra mundial. Com a segunda guerra a Europa sofre novo debaque e sua economia volta a viver momentos de dificuldades. Há esse tempo, os Estados Unidos surge como maior potencia econômica e militar do ocidente e coube a esse país a responsabilidade pelo soerguimento e econômico da Europa ocidental, até mesmo, para impedir o avanço da União Soviética sobre os demais países europeus.

Em 1944 foi realizada a conferencia de Bretton Woods com a finalidade de se encontrar formulas de financiar a reconstrução da Europa. Imaginou-se, por inspiração americana, um Plano que se chamou de European Recovery Program (ERP), que ficou mais conhecido como Plano Marshall.

O Plano Marshall incluía ajuda inclusive aos países do leste europeu que ficaram sobre a proteção da Rússia, ajuda que foi, evidentemente, rejeitada pela União Soviética. O total de recurso disponibilizado para reconstrução da Europa somava US$ 13 bilhões que, a preço de hoje vem a corresponder, a algo em torno de US$125 bilhões.

O Plano Marshall ensejou o restabelecimento da produção europeia que já na década de 50 ultrapassava os níveis superiores aos atingidos antes da guerra. Elevou o nível do emprego fortalecendo a demanda interna. Vale ressaltar, entretanto, que a maior parte das importações europeias era proveniente dos Estados Unidos, significando que o Plano também beneficiou o Estado Americano.

Por outro lado o Plano Marshall foi essencial para sustar o avanço de União Soviética sobre a Europa Ocidental, motivando, por seu turno, o surgimento de um esquema de segurança comum capaz de desestimular qualquer pretensão Soviética de avançar sobre a Europa ocidental – Otan – Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Na Reunião de Bretton Woods foi apresentada duas teses; uma apresenta por Keynes e outra de autoria Harry White. A tese de Keynes propunha a criação de um sistema capaz de garantir a liquidez internacional, com a criação de uma espécie de banco central internacional (International Clearing Union), onde todas as reservas dos países membros fossem lá depositadas e que esse banco central emitiria uma nova moeda denominada de Bancor. As teses de Herry White que foram aprovados foram a da volta do padrão ouro, paridade monetária estáveis e a eliminação do controle cambial.

Para que essas propostas fossem viabilizadas foi criado o FMI – Fundo Monetário Internacional e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).

  • O Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento – BIRD
O BIRD foi criado em 1944 é também conhecido por Banco Mundial, seu objeto quando da criação era de viabilizar a reconstrução dos países arrasados pela guerra. Após a reconstrução da Europa, o Banco voltou-se seu atendimento aos países subdesenvolvidos. Atualmente o Banco Mundial continua a financiar a infra-estrutura dos países em desenvolvimento e promove empréstimos privados a empresas dos países em desenvolvimento.

  • Fundo Monetário Internacional – FMI

Foi também criado, com a Reunião de Bretton Woods, com o objetivo de garantir a estabilidade financeira e econômica do mundo, dando cobertura ordem monetária, eliminação dos controles cambiais, dar assistência aos países com problemas de balanço de pagamento e oferecer recursos monetários aos países membros quando justificáveis.

Conceitos:

Paridade Monetária – relação das moedas nacionais com o ouro (padrão ouro). Na verdade a dólar americano que na época era uma moeda conversível em ouro. Desta forma todas as moedas ficaram com cotações estáveis em dólar, sendo permitido, entretanto, uma variação de 2%, ou seja, 1% acima e 1% abaixo do dólar. O país que desejasse proceder qualquer reajuste em sua moeda acima do permitido deveria consultar o FMI.

Eliminação do Controle Cambial – obedecido os princípios da paridade acima não haveria flutuação cambial. Não deveria haver restrição à entrada ou saída de capitais, exceção ao chamado hot money ( dinheiro quente).

  • Fim do Sistema de Paridade fixa
- Crise do dólar
Em decorrência da crise de balanço de pagamento dos Estados Unidos, que desde 1950 começou a apresentar déficits crescentes e que foram agravados com as despesas da guerra do Vietnã, bem como, pela elevação das taxas de juros na Europa em 1970, o dólar americano começou a apresentar crise de confiança. Assim os portadores de dólares americanos começaram a procurar os Bancos Centrais da Europa para trocá-los por divisas europeias, especialmente, pelo marcos alemães e francos suíços. Por força do acordo de Bretton Woods os bancos centrais eram obrigados a sustentarem as paridades fixas e procederam as trocas.

A Alemanha pressionou o Tesouro Americano a converter o excesso de dólar em seu poder em ouro. As reservas americanas de ouro do Tesouro americano vinham sofrendo já algum tempo perdas significativas e em 1970 era de apenas US$ 11. Bilhões, tendo o Governo Americano pleiteado à elevação das moedas europeias, no que não foi atendido, obrigando-o à decisão de não mais manter a conversibilidade do dólar em ouro e estabelecer uma sobre taxa de 10% em todas as importações americanas, para conter o Déficit em seu Balanço de Pagamento. Com essa decisão americana os Bancos Centrais da Alemanha e Holanda quebram as regras de Bretton Woods e deixaram suas moedas flutuarem.

Buscando a manutenção das regras de Vretton Woods os países industrializados celebram um acordo que ficou conhecido por SMITHSONIANO, por ter sido decidido no Instituto Smithsonian em Washington em 1971, que em síntese consistia:

  • retomada da taxas fixas de câmbio, mas com novas paridades;
  • valorizações de algumas moedas;
  • desvalorização do dólar e algumas outras moedas.

Mas esse acordo não conseguiu atingir seus objetivos e, em 1973, surgiu nova crise monetária internacional, quando Governo americano determinou nova desvalorização do dólar, em face aos persistentes déficits em seu Balanço de Pagamento. Essa decisão sepultou definitivamente os acordos de Bretton Woods.

Vale destacar, que o FMI tem sofrido inúmeras criticas ao longo de sua existência, uma das mais consistentes é feita por um Prêmio Nobel da economia Milton Fiedmann na qual afirma que o FMI não possui mais papel a desempenhar, porque sua principal atribuição era a fiscalização da paridade monetária e, não mais existindo essa paridade seu papel é dispensável.

A Relação do Brasil com o FMI

Nossas relações com o FMI foram, de modo geral, tumultuadas. No Brasil sempre existiram posições nacionalistas e de esquerda que não pouparam criticas ao papel do FMI às várias vezes que tivemos necessidade de sua ajuda. O Brasil foi ao FMI, no Governo de Juscelino Kubitschek , Jânio Quadros, Castelo Branco, João Figueiredo, Sarney, Collor e Fernando Henrique.


Comportamento da Economia Internacional das Crises do Petróleo à Crise Argentina.

A primeira crise do Petróleo ocorreu em 1973, época bastante tumultuada da economia internacional, quando ocorreu a instabilidade cambial com a desvalorização do dólar e a chamada guerra do Yom Kippur, entre Síria e Egito contra Israel.

O preço do Petróleo sofreu uma elevação de mais de 390%, saindo de US$ 2,20 o preço do barril para US$8,65. Isso ocasionou déficits no balanço de pagamento nos principais países do mundo e em especial nos países do Primeiro Mundo que foram obrigados a reduzir suas importações, dificultando anda mais a situação dos países em desenvolvimento.

A segunda crise do Petróleo ocorreu em 1979 devido à guerra entre o Iran e Iraque e seu efeito foi tão devastador para economia mundial quanto o primeiro. Mas, por outro lado, com o alto preço do petróleo, que chegou a US$32,00 por barril, passou a viabilizar jazidas até então tidas como inviáveis, como a do Mar do Norte e jazidas brasileiras. Buscou-se, outrossim, o uso de energias alternativas e no Brasil e implantou o PROALCOOL um dos programas brasileiros mais bem sucedidos.

O mundo também passou a usar o petróleo com mais racionalidade. A indústria passou a fabrica veículos mais econômicos e o consumo mundial de petróleo caiu significativamente, mas não o suficiente para fazer baixar seu preço, até porque a essa altura não seria bom para ninguém.

CRISE MEXICANA

A crise mexicana eclodiu quando o país decidiu honrar seus compromissos internacionais, originários de déficits de balança de pagamento, com recursos obtidos com Hot Money (capital especulativo). Esses recursos buscaram a economia mexicana devido a perspectiva do NAFTA ( Acordo de Livre Comercio da América do Norte) e da posse de um governo que oferecia confiabilidade Carlos Salinas.

Calcula-se que no ano de 1994 tenha entrada no México somente em hot money algo em torno de 75 bilhões de dólares. Com esse dinheiro o governo passou a honrar sua divida externa. Mas a conjuntura econômica internacional se modifica. O Governo americano eleva persistentemente sua taxa de juros que saiu de 2,25% em fevereiro de 1994 para alcançar 5,5% em novembro do mesmo ano. Nesse período também se agrava a situação política do México com o assassinato do candidato a presidente da república Luis Donaldo Colasio e com a revolta dos Chiapas. Esses fatos assustaram os investidores internacionais que, evidentemente, com é comum a esse tipo de dinheiro, debandaram da economia mexicana da noite pro dia.

Acrescente a tudo isso a mal calculada política cambial que vinha sendo praticada pelo México desde 1990, com uma desvalorização cambial, significativamente inferior à inflação interna e isso mantinha o peso mexicano valorizado facilitando as importações e evidentemente, dificultando as exportações, acumulando assim saldos negativos na balança comercial.

  • Medidas Mexicanas Para Minimizar os Efeitos da Crise

Os críticos apontam como mais desastrosas às medidas adotadas para minimizar o efeito da crise, como pior que a própria crise. O Ministro das Finanças mexicano Senhor Jaime Serra Puche adotou as seguintes medidas:

. desvalorização do peso em 15%;
. congelamento dos preços por 60 dias;
. restrição ao aumento salarial por 60 das.

Essas medidas fizeram despencar a Bolsa de Valor mexicana e de quase toda América Latina. As reservas mexicanas de divisas despencaram, o Ministro das Finanças foi demitido e o país quebrou literalmente, exigindo um apoio americano, conforme o previsto nos termos do NAFTA.
Mas uma vez o FMI foi apontado como culpado pela crise mexicana e se defende afirmando que houvera alertado às autoridades mexicanas sobre o risco de desvalorização do peso.

  • Consequências da Crise Mexicana

Na Argentina

O quadro cambial de economia Argentina era muito parecido com o da economia Mexicana. O peso argentino mantinha a paridade de 1 para 1 com o dólar americano, medida adotada para conter a inflação interna.

A rigidez de sua política cambial que permitia a conversibilidade do poso por dólar não tardou a afetar seu balanço de pagamento, que desde 1991 começou a apresentar déficits, especialmente nas contas de transações correntes.

A saída de dólar da economia Argentina significava à redução de peso do meio circulante pela obrigatoriedade que tinha o Banco Central em recolher em peso o valor dos dólares saídos. Evidentemente, que essa medida iria mais cedo ou mais tarde significar aperto de liquidez.

Com esse quadro e mais repercussão da crise mexicana, fez despencar a Bolsa de Valores obrigando ao Governo elevar a taxa de juros internos a 25% e a vender dólares de suas reservas. O quadro recessivo afetou o sistema financeiro nacional quebrando inúmeros bancos, com repercussão no setor produtivo com o fechamento de mais de 3.000 estabelecimentos.

No Brasil

As consequências da crise mexicana no Brasil ficaram conhecidas como efeito tequila e afetou especialmente o movimento de nossas bolsas de valores que caíram algo em torno de 40 bilhões de dólares. Seu efeito não foi mais devastador devido o bom nível das reservas cambiais (40 bilhões de dólares) e da diversificação da nossa pauta de exportação.

Na verdade a crise mexicana serviu para chamar a atenção do Brasil de que para conter a inflação interna não é suficiente apenas adotar o dólar com âncora cambial, como alias chamou a atenção à época o Prof. Mário Henrique Simonsen “os déficits cambiais de novembro e dezembro acenderam a luz de advertência do Plano Real”. Para nossa economia melhorar não basta somente à âncora cambial.


CRISE NA ASIA

A crise asiática está diretamente vinculada à crise no Japão. A economia japonesa começa a apresentar mau desempenho a partir de 1992. Neste ano seu crescimento foi de apenas 1% , com isso a economia começa a apresentar sinal de recessão. Buscando reverter o quadro recessivo o Governo Japonês reduz a taxa de juros e de redesconto bancário. Os bancos japoneses que dispunham de alto nível de deposito para aplicar esses recursos, especialmente para os países conhecidos como “Tigres Asiáticos” ( Coréia do Sul, Hong Kong, Tailândia, Malásia, Indonésia, Filipinas, Taiwan e Cingapura).

Os empréstimos dos Bancos Japoneses eram feitos em dólar americano e de modo geral os tomadores ofereciam como garantia imóveis. Ocorre que o dólar elevou-se significativamente em relação ao iene e o mercado imobiliário passou por uma forte crise, dificultando o pagamento da dívida com os bancos japoneses, levando o sistema bancário japonês à falência.

O Japão era o maior comprador dos países asiáticos. Com o Japão em crise e mais a concorrência dos produtos Chineses, um a um os países conhecidos com Tigres Asiáticos começaram a apresentar dificuldades econômicas.

O primeiro apresentar dificuldades foi à Tailândia. Sua política cambial era baseada na vinculação rígida da moeda ao dólar isso favoreceu suas exportações no período de queda no valor do dólar de 1986 a 1995. A partir de 1995 o dólar começo um período de valorização e com isso as exportações tailandesas começa a sofrer queda e nenhuma medida cambial foi adotada para modificar o quadro de dificuldades das exportações. O reflexo logo se fez sentir em seu Balanço de Pagamento. Para cobrir o déficit cambial o país eleva a taxas de juros internas, atraindo capitais de hot money que passa a financiar o déficit cambial.

Para remunerar os recursos de hot money o governo tailandês vende títulos públicos, mas os juros pagos por esses títulos eram maiores que os recebidos pela aplicação das divisas estrangeiras. Essa situação chamou a atenção dos aplicadores internacionais, que começaram a retirar seu capital do país iniciando a crise asiática.

Os problemas econômicos da Tailândia se estenderam para os demais países do leste asiático, tendo a alcançado seu ápice entre 1997 e 1998. Hoje a economia dos Tigres Asiáticos, apresentando uma recuperação extraordinária, registra crescimentos econômicos significativos.

CRISE DA RÚSSIA
A transição da economia planificada para uma economia capitalista se fez de forma bastante rápida, a maquina estatal Russa era desorganizada e o déficit público era relevante, especialmente devido o alto grau de sonegação. O país se sustentava com a exportação de petróleo.

Com a queda do preço do petróleo em 1976, a única fonte de financiamento do governo russo se esgotou e o governo buscou o mercado internacional para financiar se déficit público. Não podendo saldar seus compromissos internacionais, seu credito foi rareando e outra saída não restou a país se não decretar moratória em 1998.

Essa decisão russa afetou todo mercado financeiro mundial e o FMI teve que socorrer a economia russa emprestando US$ 32 bilhões de dólares.

Já em 1999 a economia russa começa a se recuperar com a elevação internacional do preço do petróleo e devido reformas fiscais e administrativas internas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Processo Inflacionário Brasileiro


CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROCESSO INFLACIONÁRIO BRASILEIRO.
(Estudos: anos 50 a 80)
Prof: José Amado

Os anos 50 da economia nacional são marcados por um esforço no sentido da industrialização do país. Na política prevalecia o populismo de Getúlio Vargas, prática política que se estende até 1964 com o golpe militar. O esforço de industrialização situava-se no contexto da Política de Substituição de Importações – PSI, que se caracterizava pela proteção a indústria nascente nacional a partir de uma política cambial e aduaneira restritivas as importações de bens com produção similar no país, mas ao mesmo tempo em que facilitasse a importação de bens de capital (máquinas e equipamento) e matérias primas, tinha assim uma política cambial dualista que penalizava o segmento agrícola que recebia menos por suas exportações e beneficiava a indústria que pagava menos por sua importações. Essa política foi denominada de “confisco cambial”.

As taxas de inflação registrada nesse período, com exceção do ano de 1957, foram de dois dígitos, alcançando seu máximo em 1957 quando registra 39,5%. A inflação dos anos 50 tem origem no déficit público, financiado com a emissão de moeda, sendo caracterizada como uma inflação de demanda e justificada como necessária para suportar o processo de industrialização que vivia o país à época, que exigia grandes investimentos em infra-estrutura básica.

Os anos 60 foram conturbados do ponto de vista político. Na economia o país vive “a primeira grande crise de econômica em sua fase industrial” a inflação alcança 91,9% em 1964, alguns apontam como causa do desajuste a política econômica do governo anterior de Juscelino Kubitschek. Esta etapa de nossa vida econômica culmina com o golpe militar de 64.

O primeiro governo militar do General Castelo Branco procurou meios técnicos para proceder a um ajustamento na economia com o lançamento do Pleno de Ação Econômica do Governo – Paeg. Foram idealizados do Plano os economistas Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. O Plano promoveu uma política de choque de combate à inflação através da redução de crédito e aperto monetário, reduzir drasticamente o déficit público e promoveu uma reforma tributária, estabeleceu uma política salarial rígida controlando os sindicatos o que conduziu a uma queda no salário real dos trabalhadores. Entendendo que a inflação e um mal necessário a um país em desenvolvimento estabeleceu a correção monetária como uma forma de amenizar seus efeitos, reduzindo ao um índice inflacionário de 91,9% em 1964 para 20% em 1969.

Os anos 70, mais precisamente de 1967 a 1973, o Brasil viveu um período especial de sua vida econômica, que ficou conhecido como “período do milagre econômico”. O país crescia a taxas superiores a 9% ao ano e a inflação vacilava entre as taxas de 25% a 15% ao ano. Esse crescimento extraordinário da economia nacional é creditado ao ajustamento econômico ocorrido no governo de Castelo Branco e à capacidade ociosa da indústria nacional. Isso permitiu a retomada dos investimentos públicos, aumentou o nível de emprego, a indústria da construção civil cresce favorecida pelo Sistema Financeiro da Habitação e pela retomada dos investimentos públicos, a taxas de 15% ao ano, a indústria de bens duráveis beneficiada pela ampliação do crédito ao consumidor cresce também a taxas significativas, foi efetivamente um momento especial vivido pela economia brasileira.

Essa euforia de crescimento recebe seu primeiro golpe com a primeira crise do petróleo em 1972, que afetou evidentemente na apenas o Brasil, mas todo o mundo. Isso é destacado em nossa tabela da taxas inflacionárias, quando a inflação passa de 15,5% para 110,2% em 1980. Ao longo desse período ocorreu à segunda crise do petróleo em 1979, nosso balanço de pagamento devido às altas contas para pagamento do óleo impostado, mas também das importações de bens de capital e insumos que tinham seus preços cada vez mais altos no mercado internacional, devido exatamente o aumento nos preços do petróleo.

Todos esses problemas, motivados por fatores externos, impuseram ao Brasil um reajustamento em sua política de desenvolvimento, consubstanciado no segundo Plano Nacional de Desenvolvimento que define um novo modelo de política industrial direcionado à substituição de importações, gerando excedente para exportações. Esse redirecionamento era um esforço e manter a economia crescendo a taxas significativas, mas baseado no financiamento externo, pois havia dinheiro abundante no mercado internacional. Nesse período a inflação continuou crescendo.

O Brasil entra nos anos 80 com uma elevada dívida externa e quase toda ela baseada em juros flutuantes e os juros no mercado financeiro internacional começa a disparar e o país vive a chamada crise da divida externa, caracterizada pela necessidade de obter recursos para rolar a divida externa, situação que é agravada com a quebra da economia mexicana que, praticamente, afastou dos países em desenvolvimento o fluxo de recursos do chamado mercado especulativo. Neste momento o país não teve outra saída a não ser se recorrer do Fundo Monetário Nacional e aí parou de crescer devido às exigências imposta pelo FMI.

Era este o cenário que o país entra nos anos oitentas (década perdida). Às medidas impostas pelo FMI faz inicialmente arrefecer o galopante crescimento da inflação, mas apenas por dois anos, nos anos que se segue ela volta com todo o ímpeto. Entretanto, em termos externo o país se ajusta e passa a ter superávit em seu balanço comercial que contribui para o acerto das contas externas e conseguir novos recursos para financiar seu crescimento que em 1984 alcança 5,3%. Só não consegue debelar a inflação que alcança nesse ano os 223,8%.

O Brasil volta a sua normalidade constitucional em 1985, mas tendo que passar por mais um trauma que foi a morte de Tancredo Neves - presidente eleito, assumindo seu vice José Sarney. Como não podia ser diferente, a prioridade do novo governo foi o combate à inflação.

Com Sarney assume o Ministério da Francisco Dornelles (sobrinho de Tancredo Neves). Dornelles era favorável a uma política ortodoxa de combate a inflação, entretanto seu colega de ministério, Ministro do Planejamento João Sayade defende o chamado choques heterodoxos por interpretar como causa da inflação brasileira sua indexação (inflação inercial) e sua posição era apoiada pelos economistas, Pérsio Arida, Lara Resende e Francisco Lopes. Nessa disputa prevaleceu o entendimento de João Sayade e o afastamento de Ministro da Fazenda Dornelles, assumindo Dílson Funaro que é favorável ao choque heterodoxo e em fevereiro de 1986 é lançado o Plano Cruzado.

O Plano, em seu primeiro ano traz a inflação de 235% ao ano para 65%.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Considerações Sobre o Processo Inflacionário Brasileiro


CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROCESSO INFLACIONÁRIO BRASILEIRO.
(Estudos: anos 50 a 80)
Prof: José Amado

Os anos 50 da economia nacional são marcados por um esforço no sentido da industrialização do país. Na política prevalecia o populismo de Getúlio Vargas, prática política que se estende até 1964 com o golpe militar. O esforço de industrialização situava-se no contexto da Política de Substituição de Importações – PSI, que se caracterizava pela proteção a indústria nascente nacional a partir de uma política cambial e aduaneira restritivas as importações de bens com produção similar no país, mas ao mesmo tempo em que facilitasse a importação de bens de capital (máquinas e equipamento) e matérias primas, tinha assim uma política cambial dualista que penalizava o segmento agrícola que recebia menos por suas exportações e beneficiava a indústria que pagava menos por sua importações. Essa política foi denominada de “confisco cambial”.

As taxas de inflação registrada nesse período, com exceção do ano de 1957, foram de dois dígitos, alcançando seu máximo em 1957 quando registra 39,5%. A inflação dos anos 50 tem origem no déficit público, financiado com a emissão de moeda, sendo caracterizada como uma inflação de demanda e justificada como necessária para suportar o processo de industrialização que vivia o país à época, que exigia grandes investimentos em infra-estrutura básica.

Os anos 60 foram conturbados do ponto de vista político. Na economia o país vive “a primeira grande crise de econômica em sua fase industrial” a inflação alcança 91,9% em 1964, alguns apontam como causa do desajuste a política econômica do governo anterior de Juscelino Kubitschek. Esta etapa de nossa vida econômica culmina com o golpe militar de 64.

O primeiro governo militar do General Castelo Branco procurou meios técnicos para proceder a um ajustamento na economia com o lançamento do Pleno de Ação Econômica do Governo – Paeg. Foram idealizados do Plano os economistas Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. O Plano promoveu uma política de choque de combate à inflação através da redução de crédito e aperto monetário, reduzir drasticamente o déficit público e promoveu uma reforma tributária, estabeleceu uma política salarial rígida controlando os sindicatos o que conduziu a uma queda no salário real dos trabalhadores. Entendendo que a inflação e um mal necessário a um país em desenvolvimento estabeleceu a correção monetária como uma forma de amenizar seus efeitos, reduzindo ao um índice inflacionário de 91,9% em 1964 para 20% em 1969.

Os anos 70, mais precisamente de 1967 a 1973, o Brasil viveu um período especial de sua vida econômica, que ficou conhecido como “período do milagre econômico”. O país crescia a taxas superiores a 9% ao ano e a inflação vacilava entre as taxas de 25% a 15% ao ano. Esse crescimento extraordinário da economia nacional é creditado ao ajustamento econômico ocorrido no governo de Castelo Branco e à capacidade ociosa da indústria nacional. Isso permitiu a retomada dos investimentos públicos, aumentou o nível de emprego, a indústria da construção civil cresce favorecida pelo Sistema Financeiro da Habitação e pela retomada dos investimentos públicos, a taxas de 15% ao ano, a indústria de bens duráveis beneficiada pela ampliação do crédito ao consumidor cresce também a taxas significativas, foi efetivamente um momento especial vivido pela economia brasileira.

Essa euforia de crescimento recebe seu primeiro golpe com a primeira crise do petróleo em 1972, que afetou evidentemente na apenas o Brasil, mas todo o mundo. Isso é destacado em nossa tabela da taxas inflacionárias, quando a inflação passa de 15,5% para 110,2% em 1980. Ao longo desse período ocorreu à segunda crise do petróleo em 1979, nosso balanço de pagamento devido às altas contas para pagamento do óleo impostado, mas também das importações de bens de capital e insumos que tinham seus preços cada vez mais altos no mercado internacional, devido exatamente o aumento nos preços do petróleo.

Todos esses problemas, motivados por fatores externos, impuseram ao Brasil um reajustamento em sua política de desenvolvimento, consubstanciado no segundo Plano Nacional de Desenvolvimento que define um novo modelo de política industrial direcionado à substituição de importações, gerando excedente para exportações. Esse redirecionamento era um esforço e manter a economia crescendo a taxas significativas, mas baseado no financiamento externo, pois havia dinheiro abundante no mercado internacional. Nesse período a inflação continuou crescendo.

O Brasil entra nos anos 80 com uma elevada dívida externa e quase toda ela baseada em juros flutuantes e os juros no mercado financeiro internacional começa a disparar e o país vive a chamada crise da divida externa, caracterizada pela necessidade de obter recursos para rolar a divida externa, situação que é agravada com a quebra da economia mexicana que, praticamente, afastou dos países em desenvolvimento o fluxo de recursos do chamado mercado especulativo. Neste momento o país não teve outra saída a não ser se recorrer do Fundo Monetário Nacional e aí parou de crescer devido às exigências imposta pelo FMI.

Era este o cenário que o país entra nos anos oitentas (década perdida). Às medidas impostas pelo FMI faz inicialmente arrefecer o galopante crescimento da inflação, mas apenas por dois anos, nos anos que se segue ela volta com todo o ímpeto. Entretanto, em termos externo o país se ajusta e passa a ter superávit em seu balanço comercial que contribui para o acerto das contas externas e conseguir novos recursos para financiar seu crescimento que em 1984 alcança 5,3%. Só não consegue debelar a inflação que alcança nesse ano os 223,8%.

O Brasil volta a sua normalidade constitucional em 1985, mas tendo que passar por mais um trauma que foi a morte de Tancredo Neves - presidente eleito, assumindo seu vice José Sarney. Como não podia ser diferente, a prioridade do novo governo foi o combate à inflação.

Com Sarney assume o Ministério da Francisco Dornelles (sobrinho de Tancredo Neves). Dornelles era favorável a uma política ortodoxa de combate a inflação, entretanto seu colega de ministério, Ministro do Planejamento João Sayade defende o chamado choques heterodoxos por interpretar como causa da inflação brasileira sua indexação (inflação inercial) e sua posição era apoiada pelos economistas, Pérsio Arida, Lara Resende e Francisco Lopes. Nessa disputa prevaleceu o entendimento de João Sayade e o afastamento de Ministro da Fazenda Dornelles, assumindo Dílson Funaro que é favorável ao choque heterodoxo e em fevereiro de 1986 é lançado o Plano Cruzado.

O Plano, em seu primeiro ano traz a inflação de 235% ao ano para 65%.







terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pequena Histórico da Formação Econômica Brasileira
Prof. José Rodrigues Amado

  • A ocupação das Terras Brasileiras – Ciclo da Cana de Açúcar
A ocupação das terras brasileiras por Portugal fora, efetivada por pressão política dos demais países europeus que, por princípio, ignoravam a soberania de Portugal e da Espanha sobre as terras que, efetivamente, não estivessem ocupadas. Preocupados com a manutenção das terras descobertas, Portugal e Espanha foram obrigados a desviar recursos de outros empreendimentos bem mais lucrativos para empreender ações visando à ocupação de suas terras na América.

Os recursos de que dispunha Portugal para proceder à ocupação não eram suficientes, tão poucos, o tinha a Espanha. Assim tiveram que ceder às pressões, especialmente, da França, Inglaterra e Holanda, abrindo mão de parte das terras, ao assinar o Tratado de Tordesilhas.

Era urgente, portanto, implementar, nas terras descobertas, uma atividade produtiva que pudesse minimizar os custos da necessária ocupação. Há de se imaginar o quanto foi difícil encontrar, em pleno século XVI, uma atividade econômica em terras americanas capaz de suportar o custo de transporte da produção para o mercado europeu. Felizmente, Portugal já explorava em suas ilhas do Atlântico uma especiaria bastante apreciada na Europa: o açúcar. Essa cultura foi, então, trazida para o Brasil, iniciando assim, sua exploração agrícola. Portanto, foi agroindústria açucareira a primeira atividade econômica do Brasil.

O primeiro empecilho à implantação da cultura no Brasil consistiu na inexistência de mão-de-obra. Isso exigiu num primeiro momento que a transferisse da Europa, mas, evidentemente não em número suficiente a dar sustentação à atividade. Recorreu-se, então a mão-de-obra indígena. É conhecida, entretanto, incapacidade do povo indígena para o trabalho organizado. Então, a única alternativa foi à importação de escravos africanos.

Para alimentar a população agregada aos Engenhos, surgiu a agricultura e pecuária. A agricultura era de subsistência. Que aliás, permanece ainda hoje como base da sobrevivência de grande massa da população nordestina. A pecuária expande-se, assumindo proporções econômicas mais significativas.

Graça as condições excepcionais de clima e a abundância de terra a indústria do açúcar expande-se, a ponto de assumir a condição de monopólio mundial.

Essa situação privilegiada começa a ser ameaçada com o crescimento da produção de açúcar nas Antilhas. Assim, por volta de 1.640 a produção de açúcar do Brasil já não possuía a mesma pujança do inicio de sua exploração.

O que se depreende é que o ciclo da cana de açúcar, não obstante sua importância econômica, não se traduziu em benefício para o Brasil colônia, no sentido da formação de uma base econômica capaz de favorecer o surgimento de novas atividades produtivas, ensejando um ciclo virtuoso de desenvolvimento.

Essa incapacidade da economia açucareira em fomentar uma base econômica auto-sustentável está relacionada à estrutura industrial baseada na grande empresa e na utilização da mão-de-obra escrava. Condição desfavorecia a criação de um mercado interno e, em especial, também, por problemas políticos enfrentados por Portugal que não se constitui em objeto de análise desse estudo.

Quando analisamos a questão da implantação da industria açucareira sob o ponto de vista da proposta original de Portugal, qual seja, a de ocupar as terras brasileiras e de fixar uma população que pudesse defender a colônia e avançar sobre novas terras, o objetivo foi plenamente atingido.

Avanço da Pecuária

Como é destacado nas páginas anteriores, paralelamente à atividade açucareira por necessidade de alimentação do aglomerado humano que sustentava a atividade industrial, surgia uma pequena atividade agrícola nas proximidades dos engenhos e a pequena criação de gado. A atividade pecuária floresceu, mas não nas proximidades dos engenhos, devido aos conflitos criados pela invasão dos animais nas plantações. Expandiu-se mais para o interior separada espacialmente da atividade açucareira.
O Nordeste do Brasil passou a ter assim, duas atividades econômicas independentes e de características distintas: a açucareira e a pecuária. A açucareira localizada na faixa litorânea e a pecuária; a criação de gado por ser uma atividade que exigia grande extensão de terras, fator abundante e por ser a criação uma atividade itinerante avançou pelo interior, alcançando as regiões norte e sul da colônia.

As grandes extensões de terras e adaptação do índio à atividade, foram fatores que contribuíram para expansão da cultura. Mas, como destaca Furtado, a expansão da pecuária, enquanto não encontrava restrições pelo lado da oferta – oferta elástica – tinha restrições pelo lado da demanda. Tratava-se de uma atividade dependente da economia açucareira.

A produção pecuária era direcionada ao atendimento do consumo das populações trabalhadoras nos engenhos de açúcar e para o consumo próprio, ou seja, era também uma atividade de subsistência. É notório o inúmero utensílio fabricado com couro de gado e demais subprodutos naquele período da história do Brasil.

Decadência da Atividade Açucareira

A economia açucareira estava voltada, como se destacou, exclusivamente para o mercado externo. Qualquer variação na procura era de imediato refletida na produção. Entretanto, como destaca Furtado (Formação Econômica do Brasil), isso não representava nenhum problema mais sério para a economia devido sua organização.

Sendo uma economia em que não havia circulação de moeda com custos de produção, basicamente fixos (existiriam independentemente de estar ou não em operação), mesmo com o preço do açúcar em baixa, compensaria manter os engenhos operando. Essa condição permitiu que a atividade açucareira mantivesse sua estrutura produtiva, até mesmo, após a entrada no mercado mundial da produção de açúcar das Antilhas. O que ocorreu em meados do século XVII.

A produção antilhana desorganizou o mercado mundial. O preço do açúcar manteve-se baixo durante todo o século XVIII. Mas, pelas razões expostas, a produção brasileira mantinha-se elevada, só vindo a sofrer certo abalo com o inicio da mineração no centro sul do Brasil, que passou a atrair a mão-de-obra especializada da atividade açucareira e a encarecer o preço da mão-de-obra escrava.

Como se observa, a atividade açucareira do ponto de vista de sua estrutura produtiva manteve-se, independentemente, das mudanças ocorridas no mercado mundial, fortemente afetado pela produção das Antilhas. Evidentemente, que foi significativa a perda de renda reduzindo-a a quase um terço da alcançada nos períodos de maiores negócios. Mas, como a estrutura física produtiva se mantinha intacta, quando, no início do século XIX o mercado mundial volta a crescer, e a economia açucareira brasileira estava pronta, voltando a operar a plena carga.

    A Mineração

Com a decadência da economia açucareira e com a crescente concorrência de produtos da agricultura tropical no mercado europeu, Portugal entendeu que a única alternativa para manutenção da colônia seria a descoberta de metais preciosos. A essa altura as terras brasileiras, especialmente seu interior, já era razoavelmente conhecidas, em especial pelos homens que viviam no planalto de Piratininga que se especializaram na caça ao índio e na busca de ouro que, só não o encontrou, muito provavelmente, por falta de conhecimento técnico.

Portugal, consciente de que o comércio da Europa não favorecia a retomada de crescimento da economia açucareira, passou a incentivar, através de apoio técnico e financeiro, a procura por metais preciosos. O esforço logrou êxito.

Vale destacar que a essa época, primeiros decênios do século XVIII, Portugal vivia uma profunda depressão econômica e sua população amargava uma singular situação de pobreza, o que concorreu para que houvesse uma migração significativa de patrícios para colônia e em especial para terras mineiras. Calcula-se que a migração tenha atingido algo em torno de 25 a 30 mil pessoas. Essa corrente migratória também atingiu os residentes, especialmente, os da região do açúcar. Há que se destacar que esse fluxo migratório, em especial de portugueses, favoreceu a eficiência da produção mineira, pelas técnicas mineradoras, trazidas da Europa.

A economia mineira não obstante ser escravista, os escravos não se constituíram, em nenhum momento, a maioria da população. Isso implicou numa organização econômica diferenciada da economia açucareira.

A organização do trabalho na mineração era tal, que permitia ao escravo trabalhar por conta própria, com o compromisso de retribuir ao seu senhor uma determinada quantia fixa. Em alguns casos chegavam até a comprar sua liberdade.

Essa estrutura social permitiu uma mobilidade inteiramente impossível de correr na economia açucareira. A atividade mineradora “não permitia uma ligação à terra do tipo que prevalecia nas regiões do açúcar”. A imobilização financeira era reduzida pela própria natureza da exploração mineira, em que, inicialmente apresenta um período de grande expansão, mas que se exaure com o tempo de extração, em especial, no caso de exploração de aluvião.

Há de se considerar, que a atividade mineradora favorecia o surgimento de um grande fluxo de renda logo no inicio da atividade, o que contribuiu para o surgimento de atividades econômicas de apoio, beneficiando, especialmente, a pecuária, já razoavelmente desenvolvida na região sul.

A mineração é uma atividade que, em um primeiro momento provoca grande corrida migratória, gerando uma circulação monetária intensa e, evidentemente, elevando os preços dos bens e serviços. Porem, em seguida ocorre uma estabilização, para depois entrar numa fase de estagnação. Foi exatamente isso que aconteceu com a mineração de ouro no Brasil colônia.

Tudo isso ocorreu em um período de pouco mais de meio século. O apogeu do ciclo do ouro se deu entre os anos de 1750 a 1760. Já por volta de 1780 a produção de ouro não alcançava um milhão de libras (Celso Furtado). Vale destacar, que só a quinta parte do valor do ouro extraído das minas brasileiras fica com os exploradores.

Na época áurea, a produção de ouro atingia algo em torno de 3,6 milhões de libras. A população da região mineira registrava 300 mil pessoas (Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso) sendo a renda, bem inferior à obtida na economia açucareira. Mas, uma diferença merece ser destacada: a estrutura econômica que se formou com a mineração diferenciava-se da açucareira, permitindo uma sua melhor distribuição.
Sendo a riqueza melhor distribuída foi possível a formação de um mercado interno para bens de consumo corrente. Nesse mercado era reduzindo o consumo de bens de luxo e importados, diferentemente da economia açucareira. Provavelmente, por estar a região de exploração mineral situada no interior, distante, portanto, dos portos, o que encarecia os produtos importados.

Essas circunstâncias deveriam favorecer o surgimento de uma estrutura produtiva local para atender essa demanda. Mas, estranhamente, isso não ocorreu. Esse fato é explicado, primeiramente, pela restrição que fazia Portugal ao desenvolvimento atividades manufatureiras na colônia, mas também, à incapacidade técnica do imigrante europeu para criar, em uma escala significativa, uma indústria manufatureira no Brasil.

Destaca Celso Furtado que essa incompetência técnica do imigrante português para a atividade manufatureira, decorria da fragilidade da própria metrópole na atividade. Portugal por força do Tratado de Mathuen (1.703) assinado com a Inglaterra, se obrigava a adquirir produtos manufaturados, especialmente, tecidos da Inglaterra e exportar para esse país o vinho português. Esse acordo inibiu o desenvolvimento da industria manufatureira em Portugal, consequentemente, o povo português não possuía, à época, experiência industrial.


Decadência da Atividade Mineradora

A exaustão das minas e o não surgimento de uma atividade econômica de característica duradoura, a exemplo da atividade manufatureira, conduziram à economia mineradora a atividades de subsistência.

As maiores empresas mineradoras descapitarizavam-se à medida que a produção das minas reduzia-se. A expectativa de descoberta de um novo veio, levava-as a novas inversões financeiras e, sem sucesso reduzia a zero seu capital, “muitos empresários de lavra, com o tempo, se foram reduzindo a simples faiscadores”. Descapitalizados ficavam impossibilitados de investirem em outra atividade, caindo na agrícola de subsistência.

Destaca Furtado que, em nenhuma parte do mundo americano, houve um caso de involução tão rápida e tão completa de um sistema econômico constituído, principalmente, por população de origem européia.

Economia Cafeeira

A economia açucareira e mineradora como se viu, não foi capaz de criar um mercado interno capaz de dar sustentação a uma atividade econômica. Fatores como: a incompetência tecnológica e a falta de condição para importar, foram determinantes para o não desenvolvimento das atividades industriais. Vale destacar, outrossim, que qualquer esforço local visando à implantação de unidades industriais encontrava forte resistência dos ingleses, a aquela época, principais exportadores de máquinas.

A estagnação e a decadência econômica durou todo o final do século XVIII. Os efeitos da revolução industriais pouco se fizeram sentir nas terras brasileiras. Sem capacidade de investimento, sem condições para atrair investimentos externos, sem mercado interno, com seus produtos tradicionais de exportação com preços alvitrados, eram poucas as possibilidades do país sair do ciclo vicioso da estagnação econômica.

Portanto, sem capital, sem tecnologia, sem capacidade de importar, só restava ao país encontrar uma alternativa de aproveitamento do único fator de produção que lhe restava: a terra.

Surge assim o café como um grande potencial de negócios no mercado externo. A cultura já era praticada no Brasil, mas em pequena escala, só para uso doméstico. Essa oportunidade no mercado internacional decorre da desestruturação da produção haitiana.

A cultura do café teve grande desenvolvimento nas proximidades da cidade do Rio de Janeiro, onde havia abundância de mão-de-obra e porto marítimo. O transporte do café das fazendas para o porto era feito em lombo de burro, fator herdado da desestruturada economia mineradora.

A produção de café desenvolve-se mesmo com o preço em baixa no mercado internacional - primeira metade do século XVIII. A insistência do produtor brasileiro em manter a cultura, mesmo com preço baixo, se deveu, basicamente, a utilização da mão-de-obra escrava, considerado, como já sabemos, um fator fixo e a abundância do fator terra, além de ser o café uma cultura que exigia pequena imobilização de capital, o que, aliás, só era exigido durante o plantio, já que o café é uma cultura quase perene.

Do ponto de vista econômico, a economia cafeeira não suscitou a formação de uma base econômica nacional, pois basicamente não havia circulação monetária. Entretanto, ela foi responsável pelo surgimento de uma classe empresarial que mais tarde vai desempenhar papel significativo no desenvolvimento econômico do Brasil.

Esse novo empresário, por participar de todas as fases do negócio de café - da produção à venda, adquiriu experiência comercial e consciência política. Diferentemente dos senhores de engenho do nordeste que, pela estrutura de comercialização de seu produto - a venda do açúcar produzido no Brasil era de responsabilidade do monopólio formado por Portugal e Holanda – não adquiriu essa experiência, transformando-se em homens rurais e provincianos, com uma visão política paroquial, o que certamente foi um dos fatores responsável pelo atraso econômico e político da região.

Mesmo não gozando de preço extraordinário no comércio internacional, o café conseguiu mudar “os termos do problema econômico brasileiro”. O café reintegra o Brasil “nas correntes de expansão do comercio internacional”.

A cultura do café se expande usando especialmente a mão-de-obra escrava. Essa mão-de-obra, entretanto, começa a escassear, inicialmente pela proibição da importação de negros da África, mais também pela baixa taxa de natalidade da população escrava brasileira e pelas leis de proteção que culminou com a abolição. A saída seria a contratação de mão-de-obra de origem européia.

A mão-de-obra européia que se dirigia às plantações de café era obrigada a costear sua viagem com o fruto de seu trabalho. Esse compromisso assumido por contrato, dava aos fazendeiros um poder extraordinário que, somado ao seu poder econômico e político transformava esse trabalho, teoricamente, assalariado, numa espécie de servidão disfarçada. Isso não tardou a chamar a atenção da comunidade européia e migração para o Brasil começou a ser dificultada.

A questão da mão-de-obra passou, então, a ser um problema muito sério para os fazendeiros de café. Situação se agrava quando outras culturas passam a fazer concorrência ao café em termos de atração de mão-de-obra, a exemplo da cultura do algodão e da borracha na região amazônica. A solução encontrada para assegura um fluxo de mão-de-obra necessária à produção cafeeira foi o estabelecimento uma espécie de parceria com os trabalhadores estrangeiros. Surgindo, assim, à figura do colono – estrangeiro trabalhador nas fazendas de café.

A economia brasileira tem um impulso significativo durante esse período - final do século XIX e a agricultura de subsistência cresce com a expansão da cultura do café integrando, à economia nacional, a partir de suas vocações, alguns estados: o Rio Grande do Sul destaca-se na pecuária, o Paraná na cultura do mate, a Bahia o cacau. Por outro lado, os estados nordestinos, com a queda da exportação do açúcar, passa a apresentar uma crescente situação de pobreza.

A Crise na Economia Cafeeira

A cultura do café no Brasil viveu no final do século XIX seu momento excepcional. Favorecida com os problemas de doenças nos cafezais asiáticos que dizimou a cultura na ilha do Ceilão elevando o preço internacional do café e, internamente, com o Estado assumindo o custo da migração estrangeira e, principalmente, financiando a custo inflacionário a expansão da cultura, fizeram com que a produção brasileira se elevasse extraordinariamente, transformando o país no maior produtor, como ¾ da produção mundial, assumido a condição de monopólio. Essa condição dava-lhe o controle sobre o preço. Mas era necessário que exercesse também, o controle sobre a oferta. Para controlar a oferta numa situação de explosão produtiva só é possível, através do estabelecimento de uma política de estoque e não havia capacidade financeira para o estabelecimento dessa política.

As crises de mercado ocorridas ao longo de final do século XVIII foram todas absorvidas com uso de políticas cambais - depreciando a moeda nacional. Mas quando a desvalorização da moeda alcançou níveis insuportáveis com a elevação dos preços internos, a pressão social se fez ouvir e política de desvalorização teve que ser abandonada e uma outra solução teve que ser buscada para resolver a situação da superprodução.

Em 1906 produtores e governo assinam um convênio (Convênio de Taubaté) que estabelecia uma série de medidas para a valorização do preço do café. As decisões consistiram basicamente em:

  • estabelecer o equilíbrio entre a oferta e procura do café. O Governo interveria no mercado para comprar o excedente;
  • o financiamento da compra seria feito com empréstimos estrangeiros;
  • o pagamento do empréstimo seria afeito com a receita de um novo imposto cobrado sobre cada saca de café exportada;
  • que o estado deveria desestimular a expansão das plantações.
A estratégia concebida visava assegurar a manutenção dos lucros dos plantadores. Neste particular ela foi um sucesso. Entretanto, ao se manter os lucros, a atividade continuava a atrair capitais e o objetivo de desestímulos ao aumento de produção não foi alcançado. A produção de café continua aumentando chegando a dobrar, levando crer que se tenha aumentado a área plantada.

Nessa situação o Brasil entra na crise de 1.929 e neste ano exportou-se apenas 2/3 da produção. Isso, entretanto, não trouxe nenhum prejuízo aos fazendeiros, já que pelo acordo de Taubaté, o governo compraria o excedente.
Vale destacar que o mercado de café tem características inelásticas, mesmo tendo o Brasil o poder de quase monopólio e, portanto, jogar com os preços, a demanda praticamente mantinha-se no mesmo nível. Nem mesmo o grande crescimento da renda verificada do período de 20/29 de nosso principal importador; o EUA, a procura por café não aumentou.

É evidente que a política de compra de excedente de produção por parte do Governo trouxe problemas de elevação dos níveis de preços internos. Ao mesmo tempo vivia o país uma época de grandes investimentos privados com a importação de bens de capital o que pressionava o Balanço de Pagamentos.

Com a crise de 1.929 o país ver, em poucos meses, evaporar todas suas reservas obrigando as autoridades monetárias a estabelecer uma sobre-taxa às transferências de capitais. Só que, a essa altura, as reservas já estavam esgotadas.

O Brasil, portanto, entrou na crise de 1.929 com a produção de café em plena expansão. Em 1.933, não período mais grave da depressão mundial, o Brasil alcançava seu maior nível de produção.

A essa altura era impossível levantar empréstimo externo para financiar os estoques de café. A questão agora era o que fazer com o café excedente. Não colher, deixando apodrecer no pé ou colher e destruir. Mas quem pagaria a conta?

Com o poder econômico e político dos Barões do Café é de se imaginar que esse prejuízo seria assumido pelo conjunto da sociedade. Foi exatamente o que aconteceu.

A socialização das perdas do café fez com que se reduzisse o impacto, na economia, da queda na renda decorrente da redução da procura e no preço internacional do café. Furtado interpreta essa circunstancia como um ato do acaso, mas que, mesmo assim, foi a maior política “anticíclica seque preconizado em qualquer país industrializado”. Essa política permitiu que o Brasil retomasse o processo de crescimento econômico já em 1.933, enquanto no EUA essa retomada só começa a ocorrer, assim mesmo timidamente, a partir de 1.934.

Redirecionamento dos Investimentos Internos

A sustentação da renda interna e a dificuldade de importação em face à elevação dos preços dos produtos importados contribuíram para o fortalecimento do mercado interno. Com forte elevação da procura interna houve crescimento nos preços com o evidente aumento na taxa de lucratividade das empresas. Essa situação não apenas capitalizou os segmentos econômicos voltados ao mercado interno, como atraiu capitais antes aplicados no setor exportador.

No primeiro momento, a expansão da produção voltada para o mercado interno aconteceu, pela redução da capacidade ociosa das empresas. A expansão pela redução da capacidade ociosa, tem seu limite no próprio tamanho da economia. A saída para o crescimento, portanto, seria a importação de bens de capital que, de alguma forma era dificultado pelo alto preço interno da importação. Há que se considerar, entretanto, que nesse momento da história econômica, o mundo vivia a crise econômica sem precedência e o capitalista brasileiro aproveitou essa circunstancia para adquirir equipamentos usados a preços significativamente baixos. “Algumas industrias de maior vulto instaladas no país, na depressão, o foram com equipamentos provenientes de fábricas que haviam fechado suas portas em países mais fundamente atingidos pela crise industrial”.

A dificuldade de importação devida depreciação cambial, que durou até 1.937, suscitou o surgimento dentro do país de uma indústria de bens de capital. Isso foi de uma importância singular para a expansão da economia nacional.

É exatamente nesse período que o Brasil experimenta um crescimento extraordinário considerando a crise econômica vida no resto do mundo: a economia industrial cresceu cerca de 50% de 1.930 a 1.937, a produção primária 40% e a renda nacional cresceu 20%.

Abolição da escravatura e seus efeitos na economia

A abolição da escravatura, conforme é destacado por Furtado, não se constitui em destruição nem criação de riqueza, mas numa distribuição de propriedade. Equivaleu a uma “reforma agrária”. O escravo com a abolição da escravatura, deixa de ser um ativo para se transformar em um individuo. Essa mudança de status repercute na organização econômica alterando a estrutura de produção, a distribuição e a utilização da riqueza nacional.

A libertação dos escravos deve ser analisada considerando a realidade das duas economias prevalecentes à época. Na economia açucareira as conseqüências foram pouco significativas em seu efeito transformador. O escravo liberto manteve-se vinculado ao próprio engenho, recebendo um salário relativamente baixo. Não houve, portanto, grandes mudanças. Na economia cafeeira as conseqüências foram diferentes. As fazendas de café já conviviam com problemas de mão-de-obra. Essa situação favoreceu os libertos com a percepção de melhores salários. Mas há que se considerar, também, que a essa época a migração européia, especialmente, para São Paulo foi muito forte, o que forçou a mão-de-obra escrava à busca trabalho nas novas fronteiras abertas com a expansão da cultura, onde os ganhos salariais eram mais elevados. De qualquer forma a situação dos libertos do sul foi bem mais favorável que a de seus irmãos do nordeste.

Sobre esse capítulo Furtado conclui que a abolição da escravatura teve mais efeito político que econômico. “A escravidão tinha mais importância como base de um sistema regional de poder que como forma de organização da produção”.

Formação de um mercado interno

O surgimento de uma classe salarial ao final do século XIX dá uma configuração nova à distribuição da renda nacional. O ganho com salário é gasto em parte com consumo o que não é gasto com consumo é poupado para, no futuro, se transformar em investimento. A repetição desse ciclo assume um efeito multiplicador fazendo ampliar o sistema econômico.

O consumo da classe trabalhadora assalariada, diferentemente do consumo dos Barões do café e dos senhores de engenhos, baseava-se em produtos produzidos internamente que possuíam oferta elástica pela abundância de terra e de mão-de-obra. Não havia, portanto, nenhum óbice ao crescimento. Por outro lado, o nível de salário médio real manteve-se equilibrado pela elasticidade da oferta de mão-de-obra. Convém destacar, que neste período da história econômica do Brasil, foi grande a migração da região nordeste para o sul, exatamente pelos melhores salários ofertados nesta última região.

A classe trabalhadora assalariada estava vinculada ao setor exportador, portanto, sujeita as variações do comércio internacional. Qualquer retração nas exportações refletia negativamente na renda do setor, afetando inicialmente o lucro das empresas, mas, no médio prazo, viria também afetar a massa salarial.

Mantida a política de compra do excedente do café pelo Governo, agora, sem a cobertura de financiamento pela dificuldade captação de empréstimos externos, a alternativa encontrada foi financiar as compra com a emissão de moeda elevando a base monetária e conseqüentemente os preços internos. Nessa circunstância para minimizar as perdas na exportação face à inflação interna, o Governo compensava com crescentes depreciações cambiais. A desvalorização externa da moeda brasileira alcançou no período de 1.929 a 1.931, 50% a mais que a inflação interna.

Nessa situação importar era impraticável, devia-se, portanto, produzir internamente o que antes se comprava fora. Isso fortaleceu o mercado interno pela geração de emprego e renda, ao tempo em que atrair capitais antes aplicados à produção de bens voltados às exportações, especialmente da economia cafeeira. A formação interna de capital produtivo, nesse período de crise econômica mundial foi, extremamente favorecida.

No período de 29/1937 a Renda Nacional crescera 20%, elevando a renda per capita em 7%, o que é considerado extremamente significativo quando comparado ao EUA que, no mesmo período, apresentou um decréscimo.

Desenvolvimento Industrial

A industria nacional favorecida com um mercado interno em crescimento e com a dificuldade de importação devido à desvalorização cambial encontrou um ambiente, economicamente, favorável para seu desenvolvimento. Entretanto, esse ambiente estava muito susceptível às variações cambias, de tal sorte que, no período de 1934 e 1937 em que se registrou uma pequena valorização da moeda nacional foi um período de grandes dificuldades para o setor industrial.

A custo inflacionário a política cambial foi administrada no sentido de dar sustentação a florescente industria brasileira. A inflação era também alimentada pelo elevado gasto do Governo com despesas militares. Estávamos em plena segunda guerra e o Brasil participou diretamente do conflito.

Não fosse a política cambial protecionista, o próprio conflito armado ao dificultar as importações, favorecia o surgimento de iniciativas industriais voltadas à substituição de importações. Entretanto, essa substituição era feita a preços mais elevados devido o caráter monopolista da nova industria. Essa condição especial dava a industria lucros extraordinários, financiando seu crescimento.

O setor industrial no período de 40/1946 cresce à taxa superiores a 6,5% ao ano, porém com elevadas taxas inflacionárias. Deve ter contribuído também para a elevação do nível de preços o aumento do gasto público que além dos gastos com a guerra, financiava obras públicas de infra-estrutura e toda uma indústria de base, passado o Estado a assumir também funções empresariais.

No período são criadas: a Companhia Hidroelétrica do São Francisco, a Companhia Siderúrgica Nacional. Investe-se em infra-estrutura de transportes, saúde e defesa nacional sob a inspiração da primeira iniciativa de planejamento no país; o Plano de Obras Públicas e Aparelhamento da Defesa Nacional. Tudo isso é realizado a custo inflacionário – emissão de moeda.

Furtado, em Formação Econômica do Brasil destaca que, é simplista querer imputar esse crescimento da economia brasileira meramente à apropriação de renda pelo setor industrial através do processo inflacionário, mas que, a formação de capital no segmento manufatureiro tem origem fora da economia. Foi originada na “baixa relativa dos preços de importação” e que a inflação por si só não possui capacidade de uma capitalização persistente.

O que se observa nesse processo é que industria foi, na economia como toda, o setor econômico que melhor se capacitou para tirar proveito desse momento. O que menos ganhou foi o setor primário, em especial, a agricultura. Na verdade houve transferência de capital da agricultura para industria devido à degradação das relações de “intercâmbio entre o campo e cidade, a partir da mudança dos preços relativos em favor dos setores mais dinâmicos”. Essa situação de desequilíbrio começa a ser revertida em 1949 quando o preço do café dispara no mercado internacional.

Durante todos anos 40 a economia crescia, mas registrando taxa elevadas de inflação. Além dos fatores já destacados, contribui também para essa situação a implantação da legislação trabalhista, estabelecendo direitos que elevaram o custo da mão de obra. A escalada inflacionária é detida em 1948 por medidas governamentais adotadas no ano anterior, todas de cunho político. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi colocado na ilegalidade, os principais sindicados sofreram intervenção do Ministério do Trabalho, e toda uma repressão a qualquer movimento reivindicatório dos trabalhadores.

Outra medida que certamente contribuiu para a desaceleração dos preços internos foi à adoção de um câmbio mais realista (1947); a estatização da compra de divisas, usando-as de forma seletiva em benefício da industria nacional, especialmente, para aquelas voltadas à substituição de importação. Reforçando essas meditas ocorreu à melhoria do comércio internacional, até então reprimido devido à guerra e, em especial, a entrada dos EUA na guerra da Coréia, que fez aumentar nossas exportações para aquele país.

Implantação de uma Indústria de Base

O perfil da industria brasileira até 1952 é de um parque industrial voltado à produção de bens de consumo corrente. Essa base industrial exigia parta sua manutenção e expansão obras de infra-estrutura e um industria apta a atender sua demanda por matérias-primas industriais. Esta carência foi identificada e programada sua execução no Plano SALTE – 1950 (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia).

O tipo de industria que se exigia nessa segunda fase da industrialização brasileira era muito mais exigente em mobilização de capital. A infra-estrutura de transporte era outra exigência. O país carecia de estradas, porto e aeroportos, elementos integradores em um país de dimensões continentais e fundamentais à expansão da industria instalada.

Para implementar essas ações o Governo, que não pode contar com capital externo face à onda nacionalista que se instalou no país na primeira metade da década de 50, afugentando o capital estrangeiro, teve que buscar recursos dentro da própria economia via impostos e empréstimo compulsório. Assim foi criado o BNDE, cujo fundo foi formado pelo acréscimo de 15% do imposto de renda das pessoas físicas e a Eletrobrás através de empréstimo compulsório.

Essa política de investimento público aliado aos movimentos trabalhista que reaparece a partir de 1950 e, nesta oportunidade, com a complacência governamental, faz ressurgir a inflação.
Estatísticas desse período destaca que a participação do salário no valor da transformação industrial pulou de 27,8% em l949 para 32,2% em 1954 e que o salário real cresceu 13% no mesmo período. Quando se compra o percentual de aumento do salário real com sua participação no valor da transformação industrial constata-se que, nem todo o custo da elevação salarial foi repassado aos preços, indicando que parte do aumento decorreu de ganho de produtividade ou que houve redução na taxa de lucratividade do setor.

A partir de 1954 o governo procura sustar o processo inflacionário usando a restrição ao crédito, mas a economia ameaça entrar em processo de recessão, mobilizando industriais, banqueiros e comerciantes em um movimento que Singer denomina de “desenvolvimentista” que resultou na normalização do credito.

Nesse período acaba a guerra da Coréia e os estoques de matérias-primas reservadas pelos países como garantia de abastecimento pelo temor de generalização da guerra são disponibilizados e o valor de nossas exportações cai 29% e o das importações apenas 9%. Objetivando manter a política de apóio a industria, o governo faz recair basicamente essa perda sobre os cafeicultores, culminado com a baixa dos preços internos do produto, desestimulando novos plantios e o abandono das culturas menos rentáveis.

Impossibilitado de gerar excedente de capital através das exportações, ficava difícil manter o ritmo de investimento nas industrias estruturantes (Departamento I). A alternativa era refrear os arroubos nacionalistas e facilitar a entrada de capitais estrangeiros seja sobre a forma de empréstimos ou investimentos diretos. As facilidades permitidas ao capital estrangeiro atraem a industria automobilista, de tratores, de materiais elétricos, de produtos químicos etc. Enquanto o Estado intensifica, a sua já significativa presença na economia, investindo nas áreas dos transportes marítimo, fluvial e ferroviário, da exploração e refino de petróleo, na produção e distribuição de energia elétrica etc. A economia brasileira registra agora dois grandes pólos de poder: o Estado empresarial e as indústrias estrangeiras.

As industrias estrangeiras dominavam as áreas de produção de veículos automotores, de materiais elétricos, de produção de máquinas e equipamentos industriais, aparelhos elétricos, construção naval e até de material de construção. Essa expressiva participação estrangeira no setor industrial brasileiro representou, no período de 1955 a 1961, um ingresso de capital na ordem de 2,5 bilhões de dólares, entretanto, apenas 20% era investimento direto e os 80% restantes ingressaram sobre a forma de empréstimo, o que significa dizer que o centro de decisões dessas industrias permanecia no país de origem dos capitais.

Essa participação do capital estrangeiro na economia brasileira insere o país no movimento do capital internacional, tornando-o muito mais suscetível a seus movimentos de expansão e contração, situação que será fundamental para analise da evolução futura da economia nacional.

Conseqüências da política desenvolvimentista – Recessão econômica

O esforço desenvolvimentista calcava-se ainda na substituição de importação e os segmentos privilegiados eram a industria de bens de capital, bens voltados à exportação e como definido no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, a construção de Brasília. Mas, para ampliar a capacidade de produção da industria de bens de capital exigiria do país disponibilidade de divisas, considerando que a tecnologia para produção desses bens era toda importada e, para dispor dessas divisas era necessário também intensificar a produção do setor exportador ou reduzir o consumo interno para gerar excedente exportável.

O instrumento usado para responder a nova política de investimento foi, mais uma vez, a elevação dos meios de pagamento pela a emissão de moedas. A inflação alcança em 1960 os 26,3%. A inflação é a forma mais cruel de transferência de renda pois, com ela se penaliza a categoria social menos favorecida: a classe trabalhadora assalariada. Ganha com a inflação os empresários pela possibilidade que têm de elevar os preços de seus produtos e o Governo que, de forma transversa, enganosa consegue implementar seus projetos faraônicos.

Observa-se que nesse período, não obstante, a classe trabalhadora está relativamente organizada, com representação sindical e, portanto, com poder reivindicatório para exigir melhorias salariais, os aumentos conseguidos sempre estiveram abaixo do crescimento da produtividade industrial, significando perda por trabalhadores e ganhos ou apropriação da diferença pelo capitalista. Isso é evidenciado na constatação de que produtividade industrial cresceu de 1949 a 1959 em 138,5%, enquanto o salário real médio, nos mesmo período, cresceu apenas 31%. Constata-se ainda, que esse ganho de produtividade não se deveu a novos postos de trabalho pois, no mesmo período, o nível de emprego cresceu apenas 18%, evidenciado um aumento real de produtividade de 102%, portanto, com uma apropriação, pelo capital, de 2/3 do ganho de produtividade.

A conseqüência dessa política foi a aceleração do processo inflacionário, atingindo 50 pontos percentuais após 1961. Começa, então, mobilização de calasses: os trabalhadores exigindo reajuste de salários em período de tempo cada vez menor; empresários reclamavam mais crédito; o agricultor exigindo uma política de preços mínimos maiores; as donas de casa menores preços. Todos esses reclamos culminaram, como todos sabem, com o golpe militar de 1964.

Em 1964 a inflação atingiu a casa dos 80%. O Governo Militar inaugura uma nova fase política com reflexos determinantes na vida econômica do país. Imunes aos reclamos das classes, o novo governo adotou medidas duras contra a inflação, penalizando, principalmente, a classe trabalhadora. Os salários a partir de então, só teria reajustamento anual, sendo uniforme para todo o país. Os sindicatos perderam autonomia e as greves foram duramente combatidas. O trabalhador perde a estabilidade no emprego trocada pelo Fundo de Garantia de Tempo de Serviço.

As medidas governamentais de combate à inflação não se limitaram aos salários. O déficit público foi contido e inicia-se uma política de venda de títulos públicos com cláusula de correção monetária para financiamento da dívida pública. Promove-se melhoria no sistema arrecadador do governo, elevando a arrecadação e se exercesse uma política de crédito bastante rígida com enxugando os meios de pagamento e restringindo a demanda efetiva. Com todas essas medidas, a inflação em 1964 que alcançou 80 pontos percentuais começa a regredir, alcançando relativa estabilização a partir de 1967 quando começa a variar numa faixa de 20 a 25%aa.

Com todo esse arrocho a resposta da economia foi a recessão econômica. Ao restringir o consumo, com a redução do salário real, tem-se uma queda na procura agregada reduzindo as vendas nas empresas (departamento II) por via de conseqüência reduz as vendas na industria de bens de capital (departamento I). O que surpreende, entretanto, é que a recessão não foi suficiente para negativar o crescimento real da economia. A economia continuou crescendo a taxas mais modestas é claro. Procura-se explicar essa robustez da economia a um efeito compensatório engendrado pelo próprio mercado para compensar as perdas salariais. O salário médio da economia não sofrera grande queda porque, os trabalhadores com alguma especialização, conseguiram negociar salários maiores que aqueles autorizados oficialmente.

Retomada do crescimento

Em 1967 a economia volta a crescer. O governo afroixa o crédito e a economia passa a apresentar taxas crescentes de crescimento mas a partir de elevações crescentes dos meios de pagamento, mantendo, entretanto, a inflação sobre controle. Isso só foi possível pela força do poder político ditatorial, que exercia rígido controle sobre os salário e sobre os preços de determinados produtos (CIP – Comissão Interministerial de Preços). Mas essa política é extremamente concentradora de renda e foi exatamente no período de 1960 a 1970 em que essa concentração é mais evidente. Metade da população brasileira recebia menos que 1/7 da renda nacional.

Essa parda de renda de metade da população, que em 1960 detinha 1/6 da renda nacional, não é equânime. As classes E, D e C, nessa ordem, são as que mais perdem. A mais beneficiada é A. A classe E e D são praticamente excluídas do mercado de consumo e o que é demonstrado pela dificuldade a que fora submetida as industrias produtores de bens de consumo correntes tipo tecidos, calçados e alimentos. Essas industrias tiveram que redirecionar as vendas, não realizadas internamente, à exportação, graças a subsídios governamentais.

O Brasil, portanto, apresentou no período de 1968 a 1973 (Milagre Econômico) taxa de crescimento médio superior a 11%. Trata-se de um crescimento extraordinário. Poucos paises no mundo conseguiram essa façanha. Entretanto, foi um mero crescimento não desenvolvimento, no sentido de melhoria das condições gerais de vida de toda a sociedade.
Vale ser destacado, que durante asse período o Brasil apresentou taxas crescentes de endividamento externo. Portanto, boa parte do milagre foi sustentada por poupanças externas. Os principais tomadores empréstimos externos foram as empresas multinacionais e os bancos estrangeiros de investimentos. Esses recursos a serem internalizados aumentava a divida publica interna.

Com o primeiro choque do petróleo em 1973 a economia brasileira persistindo em manter seu ritmo de crescimento e no mais encontrando as facilidades de financiamentos externos é obrigada a queimar suas reservas internacionais, demonstrando ao mundo a vulnerabilidade de seu ''milagre econômico''.